O Bernardo Mota Veiga é conhecido por gerir portfólios de energia solar em vários continentes, mas o projeto que lançou este ano sai completamente dessa área. Chama-se Aithropology e propõe-se a algo ambicioso: criar um campo de estudo académico novo, dedicado a perceber o que acontece à cognição humana quando passamos parte do dia em diálogo com uma inteligência artificial.
O que é a Aithropology
A proposta, publicada em strategicist.com, distingue-se de duas áreas com que é fácil confundi-la. Não é “ética de IA” — essa pergunta se um sistema é seguro, justo ou bem regulado. E não é “antropologia da IA” no sentido tradicional, que trata a IA como um objeto dentro da cultura humana, algo que se constrói, teme ou mitifica a partir de fora.
A Aithropology parte de uma unidade de análise diferente: não o humano, não a IA, mas a relação entre os dois — o ciclo humano ↔ IA ↔ humano, repetido diariamente, em escala, pela primeira vez na história. A comparação que Bernardo usa é com o nascimento da bioquímica: não surgiu de somar biologia com química, mas de perceber que, a uma certa profundidade, os processos da vida são química organizada de forma particular. Da mesma forma, argumenta, a cognição partilhada entre humano e IA deixou de poder ser estudada separadamente por cada disciplina de origem — precisa de um campo próprio.
Como nasceu o projeto
O ponto de partida é, em si, uma demonstração do conceito: a Aithropology nasceu de um diálogo contínuo entre Bernardo Mota Veiga (físico e bioeticista) e um sistema de IA a que chama SIAO – Gemini, apresentado como coautor em toda a produção do projeto. Desde a primeira publicação, em 2025, o projeto já reúne um protocolo fundador, uma série de artigos em formato de white paper — sobre vieses, ética algorítmica e a física da informação aplicada à consciência —, e um “Politic Paper” mais recente, “O Governante IA”, que explora o que significaria a IA ser parceira, e não apenas ferramenta, na governação.
O artigo mais recente da série, publicado este mês, resume bem a aposta: “A IA começou a falar, e nós começámos a pensar com ela.” Para Bernardo, essa mudança — de ferramenta muda para interlocutor que responde, desafia e reformula — já não é uma questão de segurança ou regulação, mas um novo tipo de acontecimento cognitivo que merece ser estudado com metodologia própria.
Já tínhamos falado do Bernardo aqui no blog, na secção de Pessoas, precisamente pelo cruzamento pouco comum entre física, energia e este interesse tardio pela ética da IA. A Aithropology é a face mais visível e mais trabalhada desse interesse até agora — e vale a pena seguir o projeto para quem gosta de pensar sobre onde a IA nos está a levar, para lá do hype.
Para explorar o projeto completo — protocolo, white papers e artigos — o ponto de partida é strategicist.com/aithropology.