Pequenos fatores, grandes implicações

Antes de começar, gostava de lhe contar algumas curiosidades da minha história e do meu percurso profissional.

Eu nasci e cresci numa aldeia no centro do país. Os meus pais regressaram de Angola em 1974 e, como muitos outros, apenas com o que conseguiram trazer na viagem. Imagino como seriam difíceis aqueles tempos, no entanto, do que me lembro em criança, nunca faltou pão na mesa para mim ou para os meus irmãos. O meu pai trabalhou numa empresa de construção civil até falecer em 2004. A minha mãe trabalhou numa fábrica até a empresa falir em 2011. Éramos uma família típica da “aldeia”, com pais que lutavam diariamente para que não faltasse nada em casa.

O primeiro episódio que me lembro, relevante para este livro, foi que na terceira classe os meus pais colocaram-me num colégio particular por algumas divergências com a professora da escola da aldeia. Neste colégio frequentei a terceira e quarta classe. Nem quero imaginar o esforço financeiro que os meus pais tiveram de fazer para me manter naquele colégio com o intuito de melhorar a minha educação e o meu futuro. A verdade é que eu me senti completamente deslocado, não tinha nada de errado com o colégio nem com os colegas nem tão pouco com os professores. Estava num habitat que não era o meu. As diferenças de classes sociais eram abismais, se não eram, era o que eu sentia. O verdadeiro problema, era eu sentir que era socialmente inferior aos outros.

Não me posso queixar da educação que tive naquele colégio, mas posso queixar-me do que fiz comigo próprio. O facto de carregar aquele complexo de inferioridade durante dois anos, desenvolveram registos mentais que foram guardados no meu “armazém de registos”. Já alguma vez apanhou um choque elétrico? Se pensar em colocar um dedo num fio descarnado que está ligado à corrente, o seu cérebro avisa-o “não coloques o dedo pois vais apanhar um choque elétrico”. Este exemplo é fácil de perceber, no seu “armazém de registos”, está algo a dizer que os fios de eletricidade descarnados podem dar choque. No meu caso, ficou registado que eu era de um nível social inferior relativamente aos meus colegas, e por ter esse registo, sempre que me deparava com desafios, como falar em público ou apresentar-me a uma pessoa ou aproximar-me de alguém, a minha mente, em forma de proteção dizia “não vás, és de um nível social inferior, vais passar vergonha…”

 

É assim que a nossa mente funciona, está desenhada para nos proteger, se é difícil então a nossa mente tentará de tudo para nos afastar daquela situação.

 

Mais à frente vamos explorar mais este assunto. Encontrar a razão pela qual era envergonhado, para mim foi uma vitória, perceber que não havia nada de errado comigo, apenas tinha guardado um sentimento no meu “armazém de registos” que me impedia de ser mais extrovertido. Agora a única coisa que tinha de fazer era apagar ou alterar aquele registo.

Sempre me orgulhei por ter começado a trabalhar muito cedo. Comecei a trabalhar aos 13 anos com o meu pai, nas férias de verão. Desde então sempre trabalhei nas férias e em alguns fins de semana, tanto na construção civil com o meu pai como na fábrica onde a minha mãe trabalhava. Mais tarde, inclusive já na universidade, sempre que conseguia arranjar um “biscato” não dizia que não. Fiz montagem de palcos para concertos, contagem de viaturas para estatística, entre outras coisas. Sempre disse às pessoas que me fez muito bem, aprendi que, se quero alguma coisa tenho de lutar por ela, e em parte resultou. Os meus pais não me perguntavam o que fazia com o dinheiro, sabiam que o tinha conquistado com trabalho e que o merecia.

O aspeto exterior sempre foi muito importante para mim, talvez por viver na aldeia e estudar na cidade, tinha uma grande necessidade de andar com as roupas da moda, portanto, todo o dinheiro que ganhava era gasto maioritariamente em vestuário e saídas com os amigos. Agora percebo que estes gastos eram uma forma de compensação de autoestima.

Aprendi que, se queres algo, faz alguma coisa por isso, mas olhando para um prisma mais global, não me serviu de grande coisa, porque não aprendi a relacionar-me com o dinheiro. Calculo que tenha ganho aproximadamente 17000,00€ dos 13 aos 18 anos e quase todo o dinheiro foi gasto em bens de consumo. Se há coisa que desenvolvi neste processo foi uma resistência muito grande em fazer uma boa gestão do dinheiro. No meu “armazém de registos” ficou registado que com dinheiro podíamos… comprar coisas.

Nunca fiz uma poupança, nunca fiz algo que necessitasse de muito tempo para realizar, todas aquelas conquistas eram de realização imediata. Nunca tive grande método e havia muitas coisas que deixava a meio. Lembro-me que no liceu, como estava em artes, de vez em quando começava a pintar ou a desenhar e mais uma vez, ficava tudo a meio, porque não desenvolvi a capacidade de planeamento nem da perceção de processos.

Porque estou a contar alguns episódios da minha vida? Porque é fundamental identificar e encontrar a razão dos nossos medos, inseguranças, objeções e vulnerabilidades. Só assim percebemos porque razão estamos a agir de uma forma incorreta. Além disso, garanto-lhe que é gratificante encontrar a razão pela qual agimos assim. Faz-nos pensar que afinal não somos daquela maneira, mas sim que desenvolvemos objeções no passado, e a nossa mente, ao tentar defender-nos seguimos o caminho mais fácil e menos doloroso.

Em 2004, depois de acabar o meu curso superior, por convite de um amigo, abri a minha primeira empresa. Uma empresa de comunicação. Eu tinha jeito para a criação gráfica e o meu sócio tinha uma rede de contactos muito interessante e assim começou a minha primeira aventura profissional na área em que me tinha formado. Foi uma grande aprendizagem, lembro-me que nos primeiros dias tinha alguma dificuldade em distinguir uma fatura de um recibo. Mantive-me nesta empresa até 2013, altura em que decidi que queria algo diferente para mim, queria crescer, queria ser diferente, queria traçar o meu caminho.

A partir de 2013 já com a minha nova empresa comecei uma procura incansável por mais conhecimento, por outras experiências, outros negócios, por mais conquistas, mais sucesso…

 

Não sabia muito bem para onde estava a caminhar, apenas sabia que tinha de tentar, que tinha de fazer, que tinha de explorar, que tinha de adquirir conhecimento à espera de alcançar algo maior. Foram tempos muito enriquecedores e desafiantes.

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