Posse de bens

Como eu gostaria de ter tanta coisa… quem não gostaria? Somos inundados por anúncios publicitários a induzir o consumo, como se o nosso nível de grandeza fosse medido pela posse bens. Eu sei que a nossa necessidade de posse de bens é venenosa, eu sei que a posse de bens, pode não trazer riqueza nem felicidade, ainda assim, e percebendo isto, continuo a querer possuir bens.

 

A verdade é que se analisarmos bem, o que pretendemos ao possuir um bem, um carro, uma casa ou um relógio, é o sentimento que a aquisição e a utilização do mesmo nos proporcionam, portanto, o que realmente procuramos, são sentimentos e emoções e não o bem físico.

 

Eu gostava de comprar um Ferrari. Porque? Porque quero sentir o poder de compra, e o poder de o poder comprar, porque gostaria de sentir o sentimento de vaidade e ostentação proporcionado pelo olhar das pessoas, e sentir o poder de um motor potente. Eu não quero ter um Ferrari, quer sentir o que um Ferrari me pode proporcionar.

Imagine que quer comprar uma mota, que custa 6 mil euros, porque gosta de fazer alguns passeios de mota, na companhia dos seus amigos que também tem mota. No entanto a mota só lhe serve para esses passeios, porque não se desloca para o trabalho de mota, pois tem de levar os seus filhos à escola. A não ser que seja uma mota que valorize nos próximos anos não tem qualquer sentido fazer um investimento de 6000 mil euros para usufruir dela em apenas 2 ou 3 fins de semana por ano. Neste caso seria melhor alugar uma mota apenas para estas ocasiões? Ainda tinha a possibilidade de variar de modelo, e não tinha de suportar todas as despesas anuais que a mota tem, mesmo parada.

Atenção, isto é só um exemplo, e pode fazer todo o sentido ter uma mota, se é um amante de motas, não me interprete mal.

A necessidade de posse é algo que a maioria das pessoas tem, eu incluído, porque é difícil resistir a tanta oferta. Fazemo-lo quando nos endividamos durante 30 anos para comprar uma casa. Quando compramos um carro de uma gama acima do que realmente necessitamos. Quando compramos algo saciamos, por alguns momentos, a “fome” de ter e possuir.

Quem tem esta “fome”, normalmente são pessoas que não tem a capacidade financeira de adquirir os bens, e procuram a compensação que o ato da compra lhes proporciona. Confesso que já caí muitas vezes nesta ratoeira, agora menos, mas ainda continuo a cair nela.

Um truque que tenho feito, é fazer duas perguntas quando penso em comprar algo: “Quanto vale daqui a 5 anos?” e “Preciso mesmo disto?” Normalmente estas duas perguntas justificam, ou não, a compra. Se comprar algo que valorize, vai sempre ganhar algum dinheiro numa possível venda, e se comprar algo que realmente precise, bem, neste caso tem mesmo de ser.

A verdade é que a posse de alguns bens não nos deixa enriquecer, costuma-se dizer que dinheiro faz dinheiro, certo? Ora se o dinheiro está convertido em bens, então não é possível fazer mais dinheiro, a não ser aqueles bens, que compramos com o intuito de ganharmos algo, com dividendos, rendas ou lucro numa possível venda.

Eu não sou um especialista financeiro, muito longe disso, mas consegui perceber que a certa altura sentia atração pela posse de bens para compensar a falta de capacidade de compra. Uma vez fiz um exercício, coloquei todos os bens que tinha que achava desnecessários à venda. Uma objetiva que não usava, uma maquina fotográfica que não usava, uma bicicleta que não usava, um computador que não usava… e apenas numa semana realizei cerca de 2500 euros. A verdade é que se eu não tivesse tomado aquela atitude, daqui a 5 anos os bens não valiam nada e todo o valor se tinha evaporado. Com o dinheiro posso fazer opções mais inteligentes e coloca-lo a trabalhar para mim. Falaremos disso mais tarde.

Já reparou na mudança de alguns paradigmas em relação à aquisição de alguns produtos e serviços? Estamos a poder deixar de comprar carros, podendo fazer um aluguer de curta ou longa duração. Podemos deixar de comprar música ou livros, podendo fazer uma subscrição na Amazon e no Spotify. Já não compramos software em CD, fazemos uma subscrição mensal ou anual.

Quando falo deste assunto com amigos, e normalmente o assunto tem a ver com compra de carros, vem sempre a afirmação da praxe, “mas assim o carro nunca é teu”, mais uma afirmação envenenada pelo sentimento de posse (atenção, em alguns casos pode ser vantajosa uma compra, apenas estou a explicar o conceito). Neste momento tenho uma teoria, pago para me movimentar, e não para possuir uma viatura. Assumo uma despesa para me movimentar de um lado para o outro, utilizando um aluguer de longa duração. Além disso, se possuirmos uma viatura somos responsáveis por todas as manutenções, avarias, desgastes, imprevistos etc. Mais uma vez é só um exemplo, e dependendo da sua utilização pode fazer ou não sentido.

A verdade é que somos muito agarrados aos bens, basta abrir o seu guarda fatos para perceber que tem peças de roupa que não usa há anos, mas não se desfaz delas porque sabe que vai sentir uma sensação de perda, e para se desculpar diz para si mesmo “pode ser preciso mais tarde…”.

 

Habituei-me a ver sempre os dois lados da moeda, para cada afirmação poderá haver várias ilações e várias opiniões e, se a sua opinião é diferente da minha, não vejo uma discordância, vejo mais uma opção, ou seja, mais uma visão de outra pessoa. Provavelmente não estaremos todos certos nem todos errados, somos direcionados por vários fatores na vida e nenhuma direção está 100% correta ou errada.

 

Pode discordar com tudo o que eu disse até agora, e garanto-lhe que não estará 100% errado, mas se acreditar que o caminho é outro e não se esforçar a 100% para atingir os seus objetivos, então estará 100% errado.

 

Não procuro ter razão em tudo o que escrevo ou digo, não quero é estar calado, sem opinião ou sem direção, quero aprender, experimentar, errar e compreender.

Uma das maiores lições que tive, em relação ao tema da posse de bens, foi quando tentei comprar uma casa como investimento. Era uma casa antiga cheia de problemas, mas parecia barata, e por ser barata parecia-me um bom investimento. Dei sinal para efetuar a compra, e comecei o processo junto do banco para comprar a casa. A casa era antiga e uma parte estava em ruinas, outra parte tinha inquilinos e outra estava em obras. Com tanta confusão não consegui um seguro para o empréstimo, logo não consegui o empréstimo. Perdi todo o sinal que já tinha dado ao proprietário e aprendi uma grande lição.

Às vezes o que parece barato pode sair bastante caro, e neste caso, o problema não era a casa, era o meu timing e o meu objetivo. O meu objetivo era esperar que os inquilinos saíssem para ficar com todo o imóvel liberto para eu poder fazer o que quisesse. Tempo previsto: até que os inquilinos morressem, poderia levar 10, 15, 20, 30 anos ou mais, ou seja, poderia ter de esperar cerca de 30 anos para poder rentabilizar a casa. Além disto, naquela altura da minha vida, um endividamento apenas iria condicionar a minha liberdade.

Lembro-me que o meu amigo Rui Loureiro, com quem eu partilhei este episódio, e me foi dando alguns conselhos, disse: “Os bancos às vezes podem ser os nossos melhores amigos”. Não percebi o que ele quis dizer com aquilo, mas ele explicou. “O banco vai garantir que o imóvel cumpre todas as obrigações, entre seguro, licenças de habitabilidade, etc. e, se não se verificarem não faz o empréstimo. Se o banco não faz o empréstimo então alguma coisa está mal”. Não tenho simpatia nenhuma com bancos, mas neste episódio agradeço-lhes a excessiva burocracia que fez com que não conseguisse comprar a casa.

Depois de ter percebido a ratoeira da posse dos bens, comecei a investir o dinheiro de forma diferente. Em vez de gastar o dinheiro, passei a investir o dinheiro. Em vez de comprar um telemóvel de ultima geração, compro um telemóvel inferior e o dinheiro que poupo, coloco-a a trabalhar para mim, investindo-o em algo que gere mais dinheiro. Mas sobre este assunto falaremos no próximo capítulo.

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